Título ainda não definido

Todo mundo tem um título original para o seu blog. Eu não tive criatividade suficiente para tanto. Inventei esse título para ser provisório, mas agora decidi que ele será permanente.

Vale a pena discutir?

Sexta-feira, Agosto 25, 2006
Aristótles escreveu:
Nem todo problema, nem toda tese deve ser examinado, mas somente aqueles que possam intrigar alguém que necessite de argumentos; não punição, nem percepção. Pois aqueles não sabem se devem honrar os deuses e amar os sues pais, necessitam de punição; os que não sabem se a a neve é branca ou não necessitam de percepção.

Lembrei disso quando falaram no orkut que todos são iguais. Se todos são iguais, como saber se eu não sou você e você não é eu? É uma questão tão óbvia que dispensa argumentação. Essa gente precisa apenas de percepção e não adianta discutir, porque argumentos não ajudam a quem não consegue enxergar o óbvio.

Gorjetas

Sábado, Novembro 05, 2005

Em espanhol, “gorjeta” se diz “propina”. Portanto, coisa boa não deve ser! Sempre detestei dar gorjetas. Eu acho que o custo da gorjeta deveria estar inserido no preço do serviço, mesmo que venha discriminado separadamente na conta. É constrangedor dar dinheiro diretamente para o indivíduo que presta o serviço, afinal essa pessoa está apenas cumprindo o dever relativo à sua posição, ao seu emprego.

Digo isso do ponto de vista de quem recebe o serviço e “paga” a gorjeta, mas me sinto muito à vontade para dizê-lo porque estou também no outro lado, o daquele que recebe.

Já não gostava da idéia de pagar gorjeta antes e, agora que estou em posição de recebê-las, detesto mais ainda. Apesar de nunca ninguém ter me dito isso explicitamente, eu fui educado para não receber dinheiro de estranhos, a menos que tenha feito algo para merecê-lo, ou seja, que tenha sido contratado. Gorjeta se aproxima muito de esmola. Sempre achei errado dar esmolas. Receber esmola é muito pior e pedir esmolas é o fim da picada. É o fundo do poço. É admitir que não se presta para nada, que não há nada que se possa fazer que realmente valha um pagamento.

No Japão não há o costume de dar gorjetas em hotéis e, dizem, oferecer gorjeta pode até ser considerado uma ofensa. No hotel que eu trabalho não existe nenhuma regra relativa a isso. Os funcionários são livres para receber gorjetas se quiseram. Quase todo mundo que eu conheço lá fica feliz e agradecido de receber gorjetas.

Eu não. Eu me sinto, como dizem, ofendido quando me oferecem gorjetas. Recuso enfática e sistematicamente. Sinto-me mais ofendido ainda quando me oferecem trocados. Fico brabo mesmo! Mesmo assim, há vezes que eu acabo recebendo, para evitar de ser demasiado rude, o que não é próprio na minha função. Quero dizer que, se eu não estivesse trabalhando num hotel e não tivesse que tratar os hóspedes com delicadeza, xingá-los-ia.

Os hóspedes americanos, por hábito, oferecem geralmente moedinhas contadas, equivalendo a mais ou menos 2 dólares por peça de bagagem carregada, que é o usual nos Estados Unidos. Basta explicar que no Japão não é necessário dar gorjeta e a maioria deles agradece e guarda o dinheiro de volta. Alguns insistem: “Eu sei que não precisa, mas eu quero dar mesmo assim.” A esses, eu agradeço, faço um sorriso e não estendo a mão para pegar o dinheiro. Quando a insistência é muito grande eu acabo recebendo para não bater boca com o hóspede, mas fico extremamente estressado. Se pudesse, largaria o dinheiro ali na porta do quarto. Mas novamente, não posso fazer isso devido à minha posição.

Com hóspedes japoneses é ainda mais difícil, porque eles já sabem de antemão que não se dá gorjetas em hotéis japoneses. Eu percebo que alguns claramente querem dar gorjetas porque eles acham “legau”; sentem-se como se estivessem no exterior. É sempre mais difícil de recusar gorjetas de japoneses do que de estrangeiros, porque uma recusa inicial pode ser interpretada como apenas um gesto de educação. Na etiqueta japonesa, é rude aceitar qualquer coisa que seja na primeira oferta. Aliás, os meus colegas que gostam de receber gorjetas também, todos, recusam na primeira oferta. Por isso, os hóspedes japoneses sempre insistem, dizendo “sukunai kedo” (é pouco, mas [aceite, por favor]) ou “kimochi dake” (é só pelo sentimento [como se o dinheiro fosse uma expressão do sentimento de gratidão que não pudesse ser expressado de outra forma]). Eu agradeço e digo: “[pode ficar com o dinheiro;] recebo só com o sentimento.”

(Percebi agora que tive que colocar algumas coisas entre colchetes para conseguir traduzir o japonês. Esse é um dos motivos por que dizem que os japoneses são dúbios e às vezes misteriosos. Muitas coisas ficam nas entrelinhas, mas são perfeitamente entendidos por todos como se fossem ditas explicitamente. Em certas situações, não é educado falar as coisas claramente; espera-se que o interlocutor entenda sem que seja preciso explicar explicitamente.)

Como eu não estendo a mão para receber gorjetas de japoneses, alguns puxam o meu braço e colocam o dinheiro na minha mão. Outros enfiam o dinheiro no meu bolso. Quando eu percebo que isso vai acontecer, eu dou um passo pra trás, mas nem sempre consigo escapar. Às vezes é porque nesse instante eu estou de costas para uma parede ou para a porta, de forma que não há para onde fugir, mas há vezes em que eles fazem isso tão rápido (especialmente as senhoras de meia-idade) que não há tempo de reagir.

Uma vez foi o cúmulo. Aquele dia vai ficar na minha memória para sempre! Eu mostrei um quarto para duas senhoras japonesas. Duas senhoras muito comuns, iguais a milhares de outras que param lá. Eu também não ofereci nenhuma explicação ou serviço além do usual. Para dizer a verdade, eu não fiz o meu trabalho como eu acho que deveria, pois era um horário de movimento no saguão do hotel e eu precisava voltar rapidamente para atender os outros hóspedes que estavam chegando.

Quando cheguei ao saguão do hotel já tinha outro hóspede esperando para que lhe fosse mostrado o quarto. Quando cheguei no elevador junto com esse outro hóspede, senti um cutucão nas minhas costas. Me virei e levei um susto: uma senhora baixinha com um envelope na mão, dizendo: “desculpe, eu esqueci” e estendendo a mão para me entregar o envelope na frente do hóspede que estava comigo e outros, inclusive estrangeiros (era mesmo um horário de muito movimento).

Era uma das senhoras a quem eu tinha acabado mostrar o quarto, mas na hora, eu nem a reconheci. Fiquei muito constrangido e disse: “obrigado, eu fico só com o sentimento”, mas a mulher continuou insistindo. Nisso chegou o elevador. Mostrei o caminho para o hóspede e fugi para dentro do elevador. A porta se fechou e eu me senti seguro, embora não soubesse que cara fazer para o hóspede que estava comigo e tinha visto toda a cena.

Para este hóspede expliquei também apenas o básico, não conseguindo esconder o meu constrangimento. Ao fechar a porta do quarto, me senti aliviado. Provavelmente não teria que falar com a aquele mesmo hóspede outra vez, portanto a minha vergonha estaria terminada. Me deu até vontade de sair assobiando no corredor, que estava deserto, de tão aliviado que eu estava.

Quando me virei para me dirigir ao elevador, percebi um vulto atrás de mim. Levei um susto (porque eu estava a ponto de começar a cantar ou assobiar para curtir o meu alívio). Era ela, com o envelope na mão! Ela me seguiu! Não tive opção: peguei o envelope, agradeci e FUGI.

Para quem estiver se perguntando de que quantia eu estou falando quando recuso as gorjetas, aí vai: no Japão, a nota de dinheiro mais baixa é de 1.000 ienes, que equivale a cerca de 10 dólares. Os japoneses consideram um tanto rude dar gorjetas em forma de moedas. Por isso, eles raramente oferecem uma gorjeta menor do que 1.000 ienes. Esse valor equivale a 10% do que eu ganho por dia de trabalho, mas eu chego a passar mais de uma semana sem que ninguém me ofereça gorjetas. Depende muito da época do ano. A gorjeta mais alta que eu já recebi foi de 5 mil ienes, ironicamente, de um espanhol. Na mesma semana uma velhinha japonesa me ofereceu uma gorjeta do mesmo valor, mas eu consegui recusar.

Eu preferiria que o hotel estabelecesse uma regra clara com relação a gorjetas, de forma que nós pudéssemos recusar com base num regulamento do hotel. Eu nem posso dizer que é regulamento do hotel porque seria desmentido por outros funcionários do hotel. Mentir é pior do que receber gorjeta. Gorjeta é uma das coisas que mais me estressa no meu trabalho, mas fazer o quê? São os ossos do ofício.

Soho

Sexta-feira, Outubro 21, 2005
Hoje eu recebi um telefonema de uma “empresa” que (diz que) trabalha com intermediação entre outras empresas e indivíduos na realização de tarefas no computador, tais como entrada de dados, web design e programação. No caso, a empresa-cliente encomenda um trabalho e essa empresa intermediária passaria o trabalho para a sua rede de contatos, que realizariam a tarefa, dentro do das suas condições de tempo disponível e capacidade, entregando a tarefa pronta para a empresa intermediária que repassaria o trabalho pronto para o cliente. É um estilo de trabalho moderno, que muitos dizem que é a tendência para o futuro, e é conhecido como pela sigla em inglês SOHO (small office/home office).

Depois da minha experiência frustrada na empresa de programas para celulares que eu trabalhava, eu achei que essa era a melhor solução para mim. Na verdade, o único problema que eu tive lá foi exatamente o estilo de trabalho. Eu trabalhava lá como horista, ou seja, eu recebia por hora de trabalho. Mesmo que o meu trabalho não rendesse, o chefe era obrigado a me pagar pelo meu tempo. Num determinado ponto, ele achou que eu não estava usando o meu tempo efetivamente e a briga estava feita. De fato, só houve desentendimento por causa do sistema de trabalho e não pelo conteúdo nem pela qualidade do serviço.

Se eu trabalhasse por um salário mensal, o problema não teria sido tão grande, pois eu poderia dedicar algumas horas a mais por dia para compensar a minha ineficiência e atender às expectativas do patrão. Mas o ideal mesmo seria que eu recebesse pelo trabalho pronto, ou, como se diz no Brasil, “por empreitada”. Assim eu teria a liberdade de usar o meu tempo como bem entendesse sem que isso representasse prejuízo para a empresa. Eu ganharia mais por hora naquilo que eu fosse bom e menos nas tarefas em que eu tivesse mais dificuldade. O patrão teria garantia de que o trabalho seria realizado da forma esperada e a um custo fixo, facilitando a sua tarefa de administrador. É essa a filosofia do soho.

Pelo lado de quem trabalha, também só há vantagens (pelo menos para quem tem competência). Há liberdade para trabalhar nas horas em que se tem mais disposição, no local em que se sinta melhor e na velocidade correspondente à sua capacidade, sem grandes pressões nem estresse. Por exemplo, uma das dificuldades que eu estava tendo no meu emprego de programador era exatamente ter que acordar às 7 da manhã, não tendo conseguir dormir direito durante a noite por causa do calor. Se eu tivesse liberdade no uso do meu tempo, poderia trabalhar durante a noite e dormir de manhã, quando a minha casa ficava fresquinha. Ou, como agora, que já começou o outono e eu estou aqui, com um cobertor enrolado nas pernas, escrevendo com o meu notebook no colo.

Para a empresa que contrata o serviço, também há a grande vantagem de se ter as tarefas realizadas dentro de um prazo e qualidade determinados e a um custo previamente conhecido. Eu coloco aqui como uma vantagem para a empresa, mas na minha opinião essa também é uma grande vantagem para o trabalhador honesto. Dentro desse modelo, o trabalhador tem certeza de que está sendo pago pelo que produziu, ou seja, de que merece o valor que está recebendo. Há quem pense que a empresa tem a obrigação de pagar, senão pela produção do trabalhador, e sim pelo tempo deste. Inclusive, a lei japonesa determina que o trabalhador seja pago pelo seu tempo na empresa. À primeira vista, parece justo, mas se raciocinarmos mais um pouco, não é certo. A empresa não é um poço sem fundo de dinheiro; o dinheiro tem que sair de algum lugar, e esse lugar é o produto que ela vende. Se o trabalhador não produzir, a empresa não tem de onde tirar o dinheiro para pagá-lo. Questão de lógica!

“Trabalhar em casa, no horário que mais lhe convém, sem pressão de chefe, sem ter que enfrentar trânsito, etc.” parece bom demais para ser verdade? Pode parecer, mas não é. Eu faço traduções para uma outra empresa exatamente nesse sistema. Aliás, eu tenho uma tradução para entregar na terça-feira, mas como eu sou livre na administração do meu tempo, eu posso estar aqui tranqüilamente escrevendo no meu blog. Ninguém vai me xingar por causa disso, nem eu vou ficar com a consciência pesada por estar desperdiçando o dinheiro da empresa, pois o meu pagamento é correspondente ao meu serviço e não ao meu tempo.

Voltando ao assunto do começo deste artigo, eu recebi aquele telefonema porque eu me inscrevera num site que oferecia esse tipo de trabalho. No site dizia que era para deixar o endereço e o número de telefone que eles enviariam um material escrito explicando mais detalhes e uns formulários para preencher. Na hora, eu nem me dei por conta que eles poderiam muito bem explicar tudo no site mesmo, com um custo bem menor, sem a necessidade de produzir um material impresso e enviar pelo correio.

Isso foi há uns dois meses atrás. Achei que o material chegaria na semana seguinte. Como não chegou, imaginnei que o meu perfil não interessava à empresa. Mas ontem de tarde, quando eu estava feliz cantando no karaoke, me ligou um tal de senhor Tanaka desse empresa para, segundo ele, “confirmar alguns dados”. Na hora eu não entendi nada, pois eu já tinha esquecido completamente do fato de ter me inscrito no site.

O senhor Tanaka começou me perguntando se eu já tinha trabalhado em casa. Eu contei que eu fazia traduções. Aí ele me perguntou se eu trabalhava com web desing. Eu disse que não, que eu não tenho intuição para trabalhar com isso e que o meu negócio era programação. Contei que eu tinha trabalhado dois meses numa empresa que fazia programas para celulares, com brew. Ele: “Brew? Que legal! O meu telefone é da AU e tem brew.” Deu para ver que ele não entendia muito de brew. Ele até me perguntou se brew era uma linguagem de programação!

A seguir, ele deixou de lado a explicação sobre a programação de celulares e passou a outro tipo de pergunta: “Quanto você pretende faturar por mês?” “Quanto de tempo você tem disponível para trabalhar?” Eu disse que precisava de pelo menos 150 mil ienes por mês e que tinha condições de reduzir as minhas outras atividades de acordo com o volume de trabalho que entrasse. Vejam bem, eu deixei claro que não esperava faturar 150 mil com o serviço que ele fosse me arranjar, mesmo assim, ele já fez uma ressalva, dizendo que “dependendo da época, não tinha muito serviço e o meu rendimento poderia ser menor do que eu esperava”. Eu disse que “tudo bem”, mas eu nem precisaria responder a essa pergunta, já que eu deixei claro que regularia o meu tempo e as minhas outras fontes de renda de acordo com o volume de serviço que ele me apresentasse.

Sem me dar melhores explicações sobre que tipo de serviço ele iria me apresentar e sem me perguntar direito o que eu era capaz de fazer, ele partiu logo para os finalmente: “Olha, para trabalhar para a nossa empresa, é necessária a emissão de uma senha para acessar o site. Para a emissão da senha, é cobrada uma taxa de 14.500 ienes.” Ah tá hehehe. Pensa que eu nasci ontem?

Eu disse para o senhor Tanaka:
— Tudo bem, assim que entrar o primeiro serviço, pode descontar os 14.500 ienes do valor que eu iria receber.
— Mas para acessar o site, precisa primeiro emitir a senha.
— Ah, quer dizer que se eu não pagar agora com o dinheiro do meu bolso, eu não posso trabalhar para a sua empresa?
— Pois é... é que tem um custo administrativo

Essa de ”custo administrativo“ é boa. Eu não agüentei e tive que responder francamente: “Olha, eu estou achando esse negócio meio esquisito.” Um japonês geralmente não responderia assim, mas eu ainda não consigo me controlar nessas horas. Ao ouvir a minha resposta, o senhor Tanaka nem tentou se explicar mais; foi logo me pedindo desculpas por ter usado o meu tempo e se despedindo. Eu também me desculpei pela minha franqueza e por não poder aceitar a proposta dele.

O senhor Tanaka me deu várias pistas do qual realmente era o seu “negócio”. Ele não se interessou muito em saber que tipo de experiência e conhecimento que eu tinha. Quando eu tentei explicar o que eu era capaz de fazer, ele mudou de assunto. Em seguida, veio essa história de senha e custo administrativo. Não faz sentido! As pessoas trabalham para ganhar dinheiro. Paga que recebe o serviço e não o contrário. Trabalhar é de graça. Ninguém precisa pagar para trabalhar!

Aqui no Japão tem muito disso, que em bom português se chama de FRAUDE. Mas acho que no caso do senhor Tanaka deve ser pior ainda. Digo isso porque ele me ligou de um telefone fixo e anuncia o seu serviço num site da internet. Ou seja, essa empresa provavelmente está totalmente de acordo com a lei. Eles devem ter um contrato que exime a empresa de qualquer responsabilidade e falando da questão do “dependendo da época, não entra muito serviço”.

Eu não estou desesperado, mas acredito que muita gente que precisa de dinheiro, acaba fazendo uma doação de 14.500 ienes para o senhor Tanaka e fica a ver navios. Tem gente ruim no mundo! Eu vi na tevê aqui a história de um curandeiro que prometia a cura do câncer para casos em que o tratamento tradicional não estava tendo efeito. Ele fazia os pacientes deixarem o tratamento médico no hospital em favor do seu tratamento alternativo. Com isso extorquia dinheiro das famílias e o paciente acabava morrendo. Como esse, há inúmeros casos de fraude se aproveitando da inocência de pessoas simples, idosos, doentes. É muita maldade!

Espírito de samurai

Quarta-feira, Outubro 19, 2005
Na semana passada eu fui fazer um trabalho de intérprete para um grupo de turistas brasileiros em passagem por Osaka. Como eles estavam realmente de passagem, entre uma estadia em Tóquio e o embarque no navio para Hong Kong, não lhes foi permitido muito tempo para passear em Osaka.

As guias japonesas propuseram um passeio composto de uma visita ao Castelo de Osaka, seguido de um templo budista e um templo xintoísta. Acho que são três lugares que resumem a cultura tradicional e a história do Japão, porém não condiz com a expectativa de turistas brasileiros. Muitos estavam cansados e com fome e não viam a hora de embarcar no navio; outros, faziam boas perguntas sobre cultura, religião e até política japonesa.

No final no passeio, fomos até o porto Tempozan para embarcar no navio. No local onde era feito o check in, tinha umas moças japonesas separando os passageiros entre os “comuns” e os “comuns” (os que já haviam feito mais de 6 cruzeiros). Entre essas moças, tinha uma uns 35 anos ou mais que me chamou atenção.

Eu estava extremamente cansado, pois tinha trabalhado à noite no hotel e só deu para dar um cochilinho de manhã antes de ir para Osaka. Às 6h da tarde, ao final do passeio, eu estava com sono, com sede, com fome e com dor nos pés. Eu, nesse estado, me compadeci da moça do navio, que estava com os olhos rodando, parecendo mais cansada do que eu.

Me aproximei dela e perguntei: “Você não dormiu? Parece tão cansada.” Ela disse: “Dormi sim! Não estou nem um pouquinho cansada.” Isso ela dizia com a boca, mas a sua cara dizia outra coisa. Aí eu disse: “Ah, então você está mentalmente cansada?” Ela disse: “Não, eu só estou tentando separar os passageiros para não dar problemas. Se eu não separar aqui, depois eles têm problemas na hora do check in e o meu chefe fica brabo comigo. Além disso, eu estou meio confusa porque eu tenho que falar japonês, inglês e cantonês (o dialeto chinês falado em Hong Kong), dependendo do passageiro.” De fato, eu falava japonês com ela, mas ela me respondia numa mistura de japonês com inglês; falava uma frase em japonês e umas duas três em inglês. Até me deu uma amostra do cantonês dela, mas logo desistiu, porque eu não entendo cantonês.

Fiquei impressionado. Já tentei aprender chinês, mas a pronúncia não é nada fácil. Eu sei que cantonês é ainda mais difícil e somando-se a isso o fato de ela ser japonesa (japonês é uma língua com poucos fonemas), é de tirar o chapéu. Disse isso pra ela. E disse também que estava impressionado com a serenidade com que ela fazia o seu trabalho e elogiei o seu belo sorriso. Só que ela não estava sorrindo! A cara dela estava completamente inexpressiva, sem estar sorrindo, nem braba, nem nada. Só transmitia uma serenidade, ou, quem sabe, uma frieza.

Por algum motivo, na hora eu interpretei essa expressão como um sorriso e elogiei o sorriso dela e a sua capacidade de ficar ali em pé, falando três línguas diferentes, preocupando-se em não deixar o seu chefe brabo e ao mesmo tempo em atender os passageiros da melhor forma possível. Eu sei bem o que isso significa, pois é esse o meu trabalho no hotel. Mais do que carregar malas e responder perguntas dos hóspedes, o meu trabalho é fazê-los sentirem-se bem, pois é para isso que servem os hotéis.

Contei para ela então, que eu trabalhava num hotel, mas que quando estava muito cansado tinha dificuldades para sorrir naturalmente. Eu disse: “Quando eu estou com sono e passei mais de 8 horas em pé, os meus pés começam a doer e a dor dos pés faz com que a minha cabeça doa também. Nessas horas, o máximo que eu consigo é fingir um sorriso só com a boca. Não sai um sorriso natural, mesmo que eu queria.” A isso ela respondeu, implacável: “Se eu fosse tua chefe, te mandava embora!”.

Tentei explicar para ela que não era uma questão de falta de vontade ou esforço, mas era apenas um reflexo natural da dor. É até possível fazer um sorriso forçado, mas o que aparece naturalmente na cara é o reflexo da dor nos pés. A partir desse instante, ela parou de misturar as línguas e passou a falar tudo em japonês. Me chamou de egoísta e egocêntrico. Disse que precisava ter o “espírito de samurai” para conseguir suportar a dor, o chefe e ao mesmo tempo fazer um sorriso natural, “do fundo do coração” (palavras dela). E esse, o espírito de samurai, é o orgulho do japonês.

Saí de lá admirado. Fiquei fã daquela mulher! Como é que ela conseguia fazer um sorriso do fundo do coração numa situação tão adversa? Lembrei dos meus chefes no hotel, que sempre estão de cara fechada e pensei: ”como seria bom se ela pudesse dar um treinamento por lá“. Mas, depois, lembrando da cara dela, é que me dei por conta que o que tinha me chamado a atenção nela era exatamente o cansaço que ela aparentava. Aquela mulher não estava sorrindo. Ela estava sim, com uma expressão serena, mas os seus olhos deixavam transparecer o cansaço. Acho que ela me enganou.

Agora pensando melhor, eu conheço gente muito mais samurai do que ela. Até o início deste ano, alguns colegas meus do hotel faziam um turno que ia das 16h de um dia até as 9h do dia seguinte. Mesmo o horário deles começando as 16h, eles começavam a trabalhar às 15h30min e não paravam até pelo menos 9h30min do dia seguinte. Isso quando não tinha muito movimento. Se fosse necessário, eles ficavam até às 11h e eu já teve casos de ficarem até as 14h (22 horas e 30 minutos de trabalho, sem dormir). Mesmo nessas condições, eles tinham capacidade de atenciosamente atender os hóspedes e esconder o cansaço de suas faces.

A mulher do navio provavelmente passou por algum treinamento no qual aprendeu a se comportar com frieza e manter a calma em qualquer situação. Algo, sem dúvidas, muito importante para quem trabalha num navio e possivelmente terá que lidar com alguma situação de crise em alto mar. Os meus colegas, por outro lado, agüentam na raça (japonesa hehehe). Um deles, muito controverso, mas que eu admiro muito (embora outros o odeiem) disse uma vez: “trabalhar é agüentar” (shigoto wa gaman suru koto da). E isso não é só discurso. Sempre fiquei impressionado com a capacidade dele de agüentar.

Mesmo tendo essa dificuldade para sorrir “do coração” sob condições adversas, várias vezes eu já fui elogiado no Japão pelo meu espírito de samurai. Acontece que eu nunca aprendi a ser fresco. Acho que tem alguma coisa a ver com eu ser gaúcho. Essa coisa de agüentar o retranco e não tá morto que peleia. Além disso, os meus pais nunca deixaram eu me queixar por pouca coisa. Em vez de me consolarem, o meu pai ficava brabo e a minha mãe me xingava.

Estando aqui no meio desses japoneses-samurais, é ainda mais difícil se queixar. Primeiro porque japonês não ouve queixas e muitos até se irritam ao ouvirem os outros se queixarem. E também porque é impossível se queixar para alguém que está passando por situação muito pior do que a sua. Posso não ser samurai, mas eu sou cuiúdo.

1984

Segunda-feira, Outubro 10, 2005

Faz tempo que eu venho ouvindo falar desse livro, escrito por George Orwell em 1949. Ultimamente, tenho visto muitas referências a ele no site Mídia Sem Máscara, as quais não condizem com o que eu vinha ouvindo sobre o livro desde os meus tempos de criança. Resolvi procurar na internet para ver se achava alguma informação e acabei me deparando com um site que publica o livro na íntegra! Li todas as sinopses dos capítulos e comecei a ler o livro inteiro, mas ainda não terminei. Ler a fonte original é a única maneira de tirar conclusões por mim mesmo.

Para quem não conhece, 1984 fala de um futuro onde o mundo estaria dividido em 3 países: Oceania, Eurásia e Lestásia, sendo os três dominados por regimes totalitários e em guerra constante entre si. A história se passa em Londres, que faz parte de Oceania, país governado por “Big Brother”. Em todos os lugares da cidade, encontram-se cartazes do Big Brother, com os dizeres: ”O Big Brother está vigiando você“. O governo de Oceania é dividido em 4 ministérios:

  • Ministério da Verdade, onde o protagonista Winston Smith trabalha. O Ministério da Verdade é responsável basicamente por modificar o passado, reescrevendo notícias notícias de jornais velhos e destruindo os originais, de forma que o que realmente aconteceu passa a ser um mero produto da imaginação de quem se lembra dos fatos e as notícias forjadas passam a ser fatos. O Ministério da Verdade também é responsável pelo desenvolvimento da Novilíngua, uma modificação do inglês, que é utilizada em documentos oficiais do Partido e planejada para substituir a língua velha, com a tradução de todos os documentos e obras literárias para a nova forma de expressão e subseqüente destruição dos originais. Em outras palavras, o Ministério da Verdade é responsável pela produção e propagação de mentiras
  • Ministério do Amor — o temível Ministério do Amor, cercado de arames farpados, portas de aço e guardas, onde ninguém entra a não ser a serviço. O Ministério do Amor é responsável pela reeducação de presos de consciência, ou seja, é o ministério da tortura
  • Ministério da Abundância: responsável pela economia. É do Ministério no Ministério da Abundância que se decidem as rações de alimentos e estratégias para conster gastos, como o racionamento de energia, por exemplo.
  • Ministério da Paz: responsável pela guerra hehehe.

Em todos os lugares, encontram-se teletelas, que são tanto receptores como transmissores de sons e imagens. São como uma espécie de tevê, por onde a propaganda do partido é transmitida o tempo todo. Ao mesmo tempo, as pessoas são vigiadas através das teletelas. Não há como saber quando se está sendo vigiado ou não, ou mesmo se você não está sendo vigiado o tempo todo.



Em parte, o sucesso desse livro se deve ao seu teor profético. No entanto, as interpretações que são dadas a essas profecias é que, no meu ver, não condizem com o que Orwell quis dizer. Como eu disse acima, o que eu vinha ouvindo falar desse livro é diferente da interpretação que é dada no Mídia Sem Máscara.

Interpretam as teletelas como sendo os nossos aparelhos de tevê. Faz sentido! O estranho está na interpretação do que as teletelas do nosso tempo dizem. A interpretação que eu sempre ouvi foi que os telejornais, as novelas e os anúncios comerciais são usados para incitar o consumismo na população, a serviço do capital! Uma interpretação digna do conceito de duplipensar descrito no livro.

Duplipensar significa conciliar dois pensamentos ou conceitos antagônicos e excludentes, de forma que ambos possam ser verdade ao mesmo tempo. É como dizer que branco é preto, acreditar nisso e esquecer que um dia branco foi branco e preto foi preto. É aceitar que dois mais dois são cinco e não quatro. Aliás, o slogan do Partido no livro era:

Guerra é paz
Liberdade é escravidão
Ignorância é força

Esse slogan estava escrito por todos os lugares em Londres e, de tanto ser repetido, torna-se realidade.

Assim é a interpretação dada por muitos, que dizem que a sociedade capitalista atual é profetizada no livro. Ora, Orwell escreveu esse livro exatamente para expressar a sua decepção com o comunismo, especialmente com o stalinismo da União Soviética. Isso não é segredo para ninguém, mas através do duplipensar os komunistas retiram qualquer ligação da história do livro com regimes comunistas totalitários e o associam exclusivamente com o “imperialismo” inglês e a sociedade capitalista atual. Ou seja, não é necessário criar uma interpretação do livro. O livro é claro no que aborda, mas para o Partido, não existe realidade a não ser aquela fabricada por ele próprio. Os fatos e as lembranças concretas não passam de devaneios, o que vale é a história escrita pelo Partido, para o qual o passado é mutável, de acordo com as conveniências do presente.

Existe um site sobre duplipensar. No começo achei que era um lugar onde as pessoas denunciavam as incongruências do dia-a-dia, das notícias, do governo, etc. Mas, lendo os artigos, percebi que se trata exatamente do contrário, ou seja, um local de exercício da arte de duplipensar, onde se criam mentiras e se acredita nelas tão completamente que passam a ser verdade até para quem as criou.

Os Sul-Africanos

Quinta-feira, Outubro 06, 2005
No mês retrasado um grupo de sul-africanos parou no hotel que eu trabalho durante mais ou menos uma semana. Eles vieram patrocinados por uma empresa japonesa (que eu não vou revelar o nome), que já tinha trazido um grupo grande de americanos e europeus (principalmente ingleses). Não dá para tirar uma conclusão sobre uma cultura e um país apenas baseado num grupo de funcionários de uma determinada empresa (embora eles fossem mais de 150 pessoas), mas me chamou muito atenção o quanto eles são diferentes dos europeus, dos americanos e dos latino-americanos. Não há como descrevê-los de outra forma, senão como "sul-africanos".

O grupo de que eu estou falando era formado quase na totalidade por brancos. Eu lembro de ter visto um casal de negros e uns poucos mulatos, com genética predominantemente branca (provavelmente tinham no máximo um avô negro). Pelo que eu sei os brancos da África do Sul são de origem holandesa e, de fato, se eles estivessem sem roupa, não falassem e não se mexessem, eu acho que não daria para distingui-los de holandeses. Eu não entendo nada de holandês (a língua), mas ao ouvir holandês, dá a impressão de que se prestar bem atenção dá para entender uma palavra ou duas dentro de uma frase (isso para quem tem conhecimento de inglês e alemão). O africâner dos sul-africanos, que, diz-se, é uma língua derivada do holandês, por outro lado, soa completamente indecifrável. É algo como finlandês, que mesmo ouvindo as palavras, a gente não tem a mínima idéia de como fazer para pronunciá-las.

A "moda" sul-africana também me pareceu algo sem paralelo. Os homens, na maioria, vestiam camisas de gola e calças de tergal ou de linho, de tons claros. Eu vi pouquíssimos de calças de brim, mas mesmo assim, eram calças bem passadas e com um bom caimento e tons claros. Em muitos países, inclusive no Brasil, usam-se camisas de gola, mas as dos sul-africanos não sei por que, são diferentes. Primeiro, as golas são mais largas do que as usadas nos outros países. Além disso, o tecido não tem uma cor lisa, tipo branco, azul ou amarelo; todas tinham algum tipo de estampa discreta, tipo linhas onduladas, losangos ou outras formas. Nada de florzinhas, corações ou xadrez. São estampas acima de tudo discretas.

O traje das mulheres, por outro lado, não tem o mesmo aspecto simples do traje dos homens. Muitas usavam vestidos, outras calças largas ou saias compridas. Eram roupas bem feitas e originais que, apesar de discretas, tinham um ar de sofisticação. O mesmo eu diria dos cabelos: todas elas tinham algum tipo de penteado definido, feito, pensado. Acho que um pouco disso se deve ao fato de a maioria ter o cabelo meio crespo ou, pelo menos, ondulado. Não sei até que ponto os cabelos ondulados não eram naturais (permanente?), mas acredito que a maioria fossem naturais, pois muitos homens também tinham o cabelo meio crespo.

Todas as mulheres do grupo usavam maquiagem, um pouco mais pesada do que as brasileiras usam em festas, com a diferença que ela estavam sempre maquiadas. Apesar de ser um pouco pesada, ainda assim dava para dizer que era discreta, bem equilibrada. Comparando com outros países, dá para dizer que as americanas praticamente não usam maquiagem e, quando usam, fazem-no de maneira a praticamente não ser percebido; as russas, por outro lado usam cores fortes e passariam perto de serem confundidas com palhaças, não fossem os tons das roupas (também fortes), que combinam com a maquiagem.

Outra característica geral é o uso do perfume. Era algo assim: quando um casal de sul-africanos saía do elevador, ficava aquele perfume por vários minutos infestando o ambiente. Mas era um perfume bom; a quantidade é que chamava atenção. Há alguns americanos que usam perfume naquela quantidade, mas o cheiro é outro: o perfume dos americanos costuma ser mais enjoado. Os europeus, ao contrário do que se diz, me parecem que são bem mais discretos no uso do perfume.

Eu achava que o vício do café era uma coisa brasileira, principalmente do Sudeste do país, mas os sul-africanos me pareceram um caso pior. Eles saíam para jantar fora e, quando voltavam queriam tomar um café, de qualquer jeito. Não lhes importava saber que os restaurantes já tinham fechado; queria tomar um café no saguão do hotel enquanto conversavam antes de dormir. Várias vezes tivemos que pedir ao serviço de quarto que trouxesse café para os sul-africanos beberem no saguão do hotel. Para mim, isso parece natural, pois os brasileiros gostariam de fazer a mesma coisa, mas para os japoneses era muito estranho. Para começar, os japoneses não ficam no saguão do hotel; quando não estão na rua, nem nos restaurantes, eles se recolhem aos seus quartos. Os japoneses não insistem em serviços que não são normalmente oferecidos (café no saguão do hotel) e não se sentem bem em comer ou beber fora de lugares destinados a isso (bares e restaurantes).

Fiquei imaginando até que ponto todo esse comportamento dos sul-africanos tem a ver com o Apartheid. Por exemplo, para se ter sempre roupas bem passadas, é necessário que alguém faça esse serviço. Os japoneses e americanos usam muito roupas sem passar. Os brasileiros e sul-africanos, não. Nesse ponto, me pareceu que o que ocorre é que na África do Sul, assim como no Brasil, eles têm empregada doméstica, que passa a roupa deles. O mesmo com relação ao cafezinho após o jantar. No Brasil, um restaurante só fecha quando o último cliente resolveu levantar a bunda da cadeira e se retirar. No Japão, o restaurante fecha na hora que ele fecha, e os garçons não têm nenhuma vergonha de chegar para os clientes e solicitar que se retirem dentro de 5 minutos porque o restaurante vai fechar. Acontece que no Japão os garçons não são uma classe diferente dos clientes do restaurante. Esses mesmos garçons de um determinado restaurante podem ser clientes de um outro restaurante. No Brasil, garçom é garçom e cliente é cliente. Os papéis não se invertem. O mesmo deve ocorrer na África do Sul.

Adeus verão, bem-vindo outono!

Domingo, Outubro 02, 2005
Até que em fim, o verão parece que acabou de vez. Ainda está quente, mas não aquele absurdo que é o verão daqui. Imaginem, durante o verão, eu só podia ficar em casa na frente do ventilador ligado no máximo; 30 segundos fora do foco do ventilador eram necessários para eu ficar todo molhado de suor. Isso, sem falar na nojeira do meu sofá que ficava molhado no lugar onde eu sentava. Agora são 10h e 30min da manhã e eu estou aqui, de camiseta e com o ventilador ligado no mínimo. De noite, eu chego a ter que fechar a janela para não passar frio!

Ainda vai demorar mais um mês e meio para realmente ficar com cara de outono, com todas aquelas folhas vermelhas dos momijis, mas algumas cerejeiras já derrubando algumas folhas amarelas e marrons. Para hoje está previsto chuva, mas no início do outono daqui, o que há de mais belo é o céu azul da manhã, com aquelas nuvens-ovelhinhas que só aparecem no outono. O ar fica muito limpo. De noite, dá para ver com nitidez a lua e as estrelas; de dia, árvores das montanhas do outro lado da cidade ficam tão nítidas que parece que dá para alcançá-las se eu apenas esticar o braço o suficiente.

Estou ansioso para a chegada daqueles dias em que sopra um ventinho gelado, com o cheiro peculiar do outono. O outono de Quioto tem o mesmo cheiro do outono de Passo Fundo. Por isso, nessa época, eu sempre fico meio nostálgico. A primavera também tem cheiro, mas é diferente. O inverno não tem cheiro de nada, e também não tem som, por isso eu sinto uma paz nessa época. É muito bom para estudar. O verão também não tem cheiro, mas eu acho que não é nem pela ausência de cheiros em si, mas pela impossibilidade de sentir qualquer coisa embaixo de um sol ardido, uma temperatura de mais de 40º e uma umidade relativa próxima a 100%. A umidade é tanta, que tem dias que a cidade fica coberta numa névoa. Se tirar uma foto, parece o meio do inverno.

Não bastasse o calor sufocante e as noites mal-dormidas, no verão tem-se que agüentar o barulho das cigarras. A cigarras do Japão são monstras: chegam a ter 5 cm de comprimento! E fazem um barulho na mesma proporção. No início são aquelas que parecem umas motosserras, que "cantam" (?) só de dia. No meio do verão surgem outros insetos que eu nem sei o que são e passam a noite fazendo barulho. Mas é um barulho até que discreto, se comparado às desgraçadas das cigarras que também passam a noite "cantando"! É inaceitável! As cigarras foram feitas para cantar só de dia!

O Festival de O-bon, que é comemorado no meio de agosto, marca o começo do fim do verão. Para os japoneses, o o-bon é uma comemoração budista, na qual, diz a lenda, os mortos voltam para visitar os seus parentes. Por isso, nessa época, as famílias se reúnem. Quem mora longe, viaja para encontrar os seus pais e, obviamente, os seus antepassados mortos que vieram para visitar. Para mim, essa época é muito especial, pois marca o fim do meu sofrimento (detesto o verão). Depois de o-bon, aparecem umas cigarras que cantam diferente. Não sei explicar em palavras, mas é um canto intermitente diferente das motosseras do início do verão.

Agora, as cigarras já sumiram e me deixaram em paz, dando lugar para os grilos. Os grilos japoneses também são bem mais barulhentos que os grilos brasileiros! Começam a cantar tarde da noite, lá pelas 10h-11h e só param pelas 6h da manhã. Mas logo virá o frio para espantar esses insetos incovenientes e me deixarem dormir em paz!

Estou com muitos planos para o outono. Quero ir visitar templos que eu ainda não conheço, tirar milhares de fotos. Quero também adiantar a minha tese, fazer o que eu não consegui fazer nos dias sofridos do calor enebriante e dias e noites de irritação com o "canto" desse bichos malditos. Bem vindo, outono!