Hoje eu recebi um telefonema de uma “empresa” que (diz que) trabalha com intermediação entre outras empresas e indivíduos na realização de tarefas no computador, tais como entrada de dados,
web design e programação. No caso, a empresa-cliente encomenda um trabalho e essa empresa intermediária passaria o trabalho para a sua rede de contatos, que realizariam a tarefa, dentro do das suas condições de tempo disponível e capacidade, entregando a tarefa pronta para a empresa intermediária que repassaria o trabalho pronto para o cliente. É um estilo de trabalho moderno, que muitos dizem que é a tendência para o futuro, e é conhecido como pela sigla em inglês SOHO (small office/home office).
Depois da minha experiência frustrada na empresa de programas para celulares que eu trabalhava, eu achei que essa era a melhor solução para mim. Na verdade, o único problema que eu tive lá foi exatamente o estilo de trabalho. Eu trabalhava lá como horista, ou seja, eu recebia por hora de trabalho. Mesmo que o meu trabalho não rendesse, o chefe era obrigado a me pagar pelo meu tempo. Num determinado ponto, ele achou que eu não estava usando o meu tempo efetivamente e a briga estava feita. De fato, só houve desentendimento por causa do sistema de trabalho e não pelo conteúdo nem pela qualidade do serviço.
Se eu trabalhasse por um salário mensal, o problema não teria sido tão grande, pois eu poderia dedicar algumas horas a mais por dia para compensar a minha ineficiência e atender às expectativas do patrão. Mas o ideal mesmo seria que eu recebesse pelo trabalho pronto, ou, como se diz no Brasil, “por empreitada”. Assim eu teria a liberdade de usar o meu tempo como bem entendesse sem que isso representasse prejuízo para a empresa. Eu ganharia mais por hora naquilo que eu fosse bom e menos nas tarefas em que eu tivesse mais dificuldade. O patrão teria garantia de que o trabalho seria realizado da forma esperada e a um custo fixo, facilitando a sua tarefa de administrador. É essa a filosofia do soho.
Pelo lado de quem trabalha, também só há vantagens (pelo menos para quem tem competência). Há liberdade para trabalhar nas horas em que se tem mais disposição, no local em que se sinta melhor e na velocidade correspondente à sua capacidade, sem grandes pressões nem estresse. Por exemplo, uma das dificuldades que eu estava tendo no meu emprego de programador era exatamente ter que acordar às 7 da manhã, não tendo conseguir dormir direito durante a noite por causa do calor. Se eu tivesse liberdade no uso do meu tempo, poderia trabalhar durante a noite e dormir de manhã, quando a minha casa ficava fresquinha. Ou, como agora, que já começou o outono e eu estou aqui, com um cobertor enrolado nas pernas, escrevendo com o meu notebook no colo.
Para a empresa que contrata o serviço, também há a grande vantagem de se ter as tarefas realizadas dentro de um prazo e qualidade determinados e a um custo previamente conhecido. Eu coloco aqui como uma vantagem para a empresa, mas na minha opinião essa também é uma grande vantagem para o trabalhador honesto. Dentro desse modelo, o trabalhador tem certeza de que está sendo pago pelo que produziu, ou seja, de que merece o valor que está recebendo. Há quem pense que a empresa tem a obrigação de pagar, senão pela produção do trabalhador, e sim pelo tempo deste. Inclusive, a lei japonesa determina que o trabalhador seja pago pelo seu tempo na empresa. À primeira vista, parece justo, mas se raciocinarmos mais um pouco, não é certo. A empresa não é um poço sem fundo de dinheiro; o dinheiro tem que sair de algum lugar, e esse lugar é o produto que ela vende. Se o trabalhador não produzir, a empresa não tem de onde tirar o dinheiro para pagá-lo. Questão de lógica!
“Trabalhar em casa, no horário que mais lhe convém, sem pressão de chefe, sem ter que enfrentar trânsito, etc.” parece bom demais para ser verdade? Pode parecer, mas não é. Eu faço traduções para uma outra empresa exatamente nesse sistema. Aliás, eu tenho uma tradução para entregar na terça-feira, mas como eu sou livre na administração do meu tempo, eu posso estar aqui tranqüilamente escrevendo no meu blog. Ninguém vai me xingar por causa disso, nem eu vou ficar com a consciência pesada por estar desperdiçando o dinheiro da empresa, pois o meu pagamento é correspondente ao meu serviço e não ao meu tempo.
Voltando ao assunto do começo deste artigo, eu recebi aquele telefonema porque eu me inscrevera num site que oferecia esse tipo de trabalho. No site dizia que era para deixar o endereço e o número de telefone que eles enviariam um material escrito explicando mais detalhes e uns formulários para preencher. Na hora, eu nem me dei por conta que eles poderiam muito bem explicar tudo no site mesmo, com um custo bem menor, sem a necessidade de produzir um material impresso e enviar pelo correio.
Isso foi há uns dois meses atrás. Achei que o material chegaria na semana seguinte. Como não chegou, imaginnei que o meu perfil não interessava à empresa. Mas ontem de tarde, quando eu estava feliz cantando no karaoke, me ligou um tal de senhor Tanaka desse empresa para, segundo ele, “confirmar alguns dados”. Na hora eu não entendi nada, pois eu já tinha esquecido completamente do fato de ter me inscrito no site.
O senhor Tanaka começou me perguntando se eu já tinha trabalhado em casa. Eu contei que eu fazia traduções. Aí ele me perguntou se eu trabalhava com web desing. Eu disse que não, que eu não tenho intuição para trabalhar com isso e que o meu negócio era programação. Contei que eu tinha trabalhado dois meses numa empresa que fazia programas para celulares, com brew. Ele: “Brew? Que legal! O meu telefone é da AU e tem brew.” Deu para ver que ele não entendia muito de brew. Ele até me perguntou se brew era uma linguagem de programação!
A seguir, ele deixou de lado a explicação sobre a programação de celulares e passou a outro tipo de pergunta: “Quanto você pretende faturar por mês?” “Quanto de tempo você tem disponível para trabalhar?” Eu disse que precisava de pelo menos 150 mil ienes por mês e que tinha condições de reduzir as minhas outras atividades de acordo com o volume de trabalho que entrasse. Vejam bem, eu deixei claro que não esperava faturar 150 mil com o serviço que ele fosse me arranjar, mesmo assim, ele já fez uma ressalva, dizendo que “dependendo da época, não tinha muito serviço e o meu rendimento poderia ser menor do que eu esperava”. Eu disse que “tudo bem”, mas eu nem precisaria responder a essa pergunta, já que eu deixei claro que regularia o meu tempo e as minhas outras fontes de renda de acordo com o volume de serviço que ele me apresentasse.
Sem me dar melhores explicações sobre que tipo de serviço ele iria me apresentar e sem me perguntar direito o que eu era capaz de fazer, ele partiu logo para os finalmente: “Olha, para trabalhar para a nossa empresa, é necessária a emissão de uma senha para acessar o site. Para a emissão da senha, é cobrada uma taxa de 14.500 ienes.” Ah tá hehehe. Pensa que eu nasci ontem?
Eu disse para o senhor Tanaka:
— Tudo bem, assim que entrar o primeiro serviço, pode descontar os 14.500 ienes do valor que eu iria receber.
— Mas para acessar o site, precisa primeiro emitir a senha.
— Ah, quer dizer que se eu não pagar agora com o dinheiro do meu bolso, eu não posso trabalhar para a sua empresa?
— Pois é... é que tem um custo administrativo
Essa de ”custo administrativo“ é boa. Eu não agüentei e tive que responder francamente: “Olha, eu estou achando esse negócio meio esquisito.” Um japonês geralmente não responderia assim, mas eu ainda não consigo me controlar nessas horas. Ao ouvir a minha resposta, o senhor Tanaka nem tentou se explicar mais; foi logo me pedindo desculpas por ter usado o meu tempo e se despedindo. Eu também me desculpei pela minha franqueza e por não poder aceitar a proposta dele.
O senhor Tanaka me deu várias pistas do qual realmente era o seu “negócio”. Ele não se interessou muito em saber que tipo de experiência e conhecimento que eu tinha. Quando eu tentei explicar o que eu era capaz de fazer, ele mudou de assunto. Em seguida, veio essa história de senha e custo administrativo. Não faz sentido! As pessoas trabalham para ganhar dinheiro. Paga que recebe o serviço e não o contrário. Trabalhar é de graça. Ninguém precisa pagar para trabalhar!
Aqui no Japão tem muito disso, que em bom português se chama de FRAUDE. Mas acho que no caso do senhor Tanaka deve ser pior ainda. Digo isso porque ele me ligou de um telefone fixo e anuncia o seu serviço num site da internet. Ou seja, essa empresa provavelmente está totalmente de acordo com a lei. Eles devem ter um contrato que exime a empresa de qualquer responsabilidade e falando da questão do “dependendo da época, não entra muito serviço”.
Eu não estou desesperado, mas acredito que muita gente que precisa de dinheiro, acaba fazendo uma doação de 14.500 ienes para o senhor Tanaka e fica a ver navios. Tem gente ruim no mundo! Eu vi na tevê aqui a história de um curandeiro que prometia a cura do câncer para casos em que o tratamento tradicional não estava tendo efeito. Ele fazia os pacientes deixarem o tratamento médico no hospital em favor do seu tratamento alternativo. Com isso extorquia dinheiro das famílias e o paciente acabava morrendo. Como esse, há inúmeros casos de fraude se aproveitando da inocência de pessoas simples, idosos, doentes. É muita maldade!